Dois dias em Vilnius e uma vida de memórias

Eram aproximadamente 8 horas da manhã quando o avião começou a descer e sobrevoar Vilnius. O sol batia na janela quando as nuvens começaram a dar espaço às cores da cidade, repleta de árvores com folhas amareladas pelo outono. Senti como se estivesse recebendo as boas-vindas, já que eu era a primeira pessoa da família a voltar à Lituânia desde que meus bisavôs deixaram o país, há 92 anos atrás, em busca de uma vida melhor.

Vista aérea de Vilnius. Foto: Karine Rio Philippi

Ao desembarcar no pequeno aeroporto de Vilnius, peguei um ônibus de linha, que em poucos minutos deixou-me no centro histórico da cidade. De mochila nas costas, eu dava meus primeiros passos em busca de minhas raízes. Era um dia bonito e ensolarado, que contrariava o pré-conceito de que os países bálticos são frios e sem cores.

Meus ouvidos me conduziram à primeira surpresa: uma dupla de senhores idosos, sentados em um banco, tocavam animadamente algumas notas musicais. Enquanto isso, pessoas caminhavam distraidamente pelas ruas, que estavam cobertas de folhas das árvores.

Senhores tocando e rua coberta por folhas. Foto: Karine Rio Philippi

Em uma viela escondida do centro histórico, encontrei a pousada que me acolheria por duas noites. Simples, mas aconchegante, com objetos e cheiros que me lembravam a casa de minha avó, filha de lituanos nascida no Brasil. Senti um misto de saudades e felicidade. Era apenas o começo da série de surpresas e sensações que surgiriam nos próximos dias.

Rua da pousada. Foto: Karine Rio Philippi

Durante o final de semana que passei caminhando pelas ruas históricas de Vilnius, vivi e vi muitas coisas.

Na praça antiga da cidade, visitei a Catedral de Vilnius, o coração da vida espiritual da Lituânia. Fundada no século XVIII, é considerada Patrimônio Mundial da UNESCO. Aproveitei para renovar minhas energias.

Catedral de Vilnius. Foto: Karine Rio Philippi

Na torre Gediminas, importante símbolo histórico do país, conheci as memórias e conquistas de um povo. Além de resgatar mais de 600 anos de história, tive uma linda vista da cidade e do pôr-do-sol.

Torre Gediminas. Foto: Karine Rio Philippi

Na Igreja de Santa Ana, fundada em 1500, me surpreendi com tamanha beleza. Segundo uma lenda local, o imperador Napoleão achou a igreja tão bonita que quis levá-la com ele para Paris “na palma de sua mão”.

Igreja de Santa Ana. Foto: Karine Rio Philippi

Na Universidade de Vilnius, datada do século XVI, conheci uma das mais antigas instituições de ensino da Europa Oriental e a maior universidade da Lituânia. Imaginei como seria ser uma dos seus mais de 20 mil estudantes.

Universidade de Vilnius. Foto: Karine Rio Philippi

Na “República de Uzupis”, fui recebida pela estátua de um anjo. Simbolicamente proclamada independente por um grupo de artistas, a região possui uma série de esculturas e pinturas escondidas. Lá me deparei com a constituição local, que me ensinou, entre outras coisas, que “todo mundo tem direito de ser feliz e que todo mundo pode compartilhar o que tem”.

Anjo de Uzupis. Foto: Karine Rio Philippi

À beira do rio Vilnia, que deu origem ao nome da cidade, senti paz e tranquilidade. Rodeado por árvores, o rio atravessa toda a capital lituana.

Rio Vilnia. Foto: Karine Rio Philippi

No Mercado Central, em meio a produtos frescos e característicos da região, conheci novos cheiros, cores e sabores.

Mercado Central de Vilnius. Foto: Karine Rio Philippi

Nos olhos de algumas senhoras, vi os olhos de minha avó. Ao provar uma porção de blynai (ou panqueca de batatas) e uma tijela de šaltibarščiai (ou sopa fria de beterraba) – imaginei como seria o gosto da comida da minha bisavó.

Saltibarsciai e batatas. Foto: Karine Rio Philippi

Mesmo sem conhecer a cidade e o idioma, eu parecia saber exatamente onde estava indo. Cada rua e cada esquina parecia estar ligada a uma memória que não era minha, mas que estava viva dentro de mim.

Eu e as folhas amareladas pelo outono. Foto: Karine Rio Philippi

Nessa viagem aprendi muito, não só sobre a Lituânia, mas principalmente sobre mim mesma. Encontrei a peça perdida de um quebra-cabeças, que ajudou a me redefinir como pessoa. Senti, enfim, que meus bisavôs estavam de volta à Lituânia, através dos meus olhos e dos meus pés.

Gostaria de conhecer mais sobre a Lituânia? Leia nossa matéria sobre lugares que resgatam a memória da imigração lituana em São Paulo.

0 thoughts on “Dois dias em Vilnius e uma vida de memórias

  1. Senti exatamente a mesma coisa. A terra de meus avós, e as memórias que minha avó nos contava.
    Quando fui ao museu etimológico, tive vontade de chorar…
    Chorar de felicidade, como se eu já estivesse lá outrora.
    A Lituânia é sem dúvida um país mágico, e tem a doçura de uma caixinha de música

    1. Oi Silvana! Essas lágrimas de felicidade também fizeram parte do meu roteiro. Acho que a Lituânia é mesmo um lugar mágico, que desperta o que há de melhor em nós. Obrigada pelo comentário.

    1. Eu que agradeço sua visita Luba! Fico feliz que tenha gostado. Espero que um dia tenha a oportunidade de vivenciar esses sentimentos na nossa querida Lituânia. Um abraço

  2. Parabéns e obgda Karine por nos presentear com suas palavras e imagens ! Estive em Vílnius e Kaunas tbm realizando um sonho : conhecer as minhas origens por minha avó Magdalena Makarevicius ! Realmente pousar em Vílnius mexeu com minha estrutura emocional: os vários tons de verde me fizeram chorar quando da descida do avião,sem explicação! Treinei meu “parco” lituano com recepcionistas de hotel , com taxistas , moradores locais , vendedores etc ! Lógico q me perdi varias vezes por lá pois havia alugado um carro ! Há oito anos, o Inglês lá ainda era raro p localização! Para voltar ao hotel , baseava-me numa torre de tv imensa ! Só q ela é redonda … deu p entender ? Amei a Lituânia! Meu segundo país!

    1. Oi Suzi! Adorei conhecer sua experiência na Lituânia e ver que vivenciamos os mesmos sentimentos. Ainda não tive a oportunidade de visitar Kaunas, mas da próxima quero ter a oportunidade de fazer um roteiro parecido com o seu: alugar um carro e ir conhecendo as diversas regiões do país. Deve ter sido uma aventura em termos de comunicação, hein? Eu quando fui encontrei poucos que falavam inglês, mas deu pra me virar tranquilamente. Mas preciso aprimorar meu lituano! rs Um abraço

  3. Lituânia foi e é e uma grande surpresa para mim. Sou filho e neto de Lituanos. Tenho hoje 63 anos. Gostaria de ter conhecido a Lituânia alguns anos antes, ter aprendido o idioma. Voltarei a Lituânia e talvez fique por lá.
    Taika, sveikata, klestėjimas ir išmintis mus informuoja.

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